O circo tributário chega ao reality show
Era para ser só mais uma briga previsível de confinamento: o ex-modelo Jonas Sulzbach, rotulado de “playboy”, contra Babu Santana, elevado a símbolo do trabalhador honesto. O que ninguém esperava era que a Casa Civil da Presidência da República entrasse na dança. Publicou meme oficial associando a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil à suposta vitória do “povo” contra os privilegiados. Frases do tipo “se você é playboy, isso aqui não é sobre você” e elogios ao “carisma grandão” do trabalhador isento viralizaram — até o backlash começar. Aí o post sumiu mais rápido que promessa de campanha.
Não é apenas ridículo. É revelador. Quando um governo precisa recorrer a um reality show de quinta categoria para “explicar” uma medida fiscal, algo está profundamente errado. Não há mais confiança no debate racional, na exposição de números, na defesa de princípios. Sobrou o apelo emocional mais barato: dividir a sociedade em mocinhos e bandidos de novela, torcer para o público comprar a narrativa e aplaudir.
A farsa da “justiça” que divide para reinar
A manobra é velha conhecida: pintar o contribuinte de renda média-alta como parasita e o assalariado de baixa renda como vítima eterna do sistema. Só que a realidade não cabe em meme. A isenção até R$ 5 mil, embora popular, não é presente divino. É transferência de custo. O buraco fiscal estimado em dezenas de bilhões precisará ser tapado — e o Estado brasileiro só conhece duas formas: imprimir dinheiro (inflação) ou aumentar impostos indiretos (os que mais pesam sobre os mais pobres).
Enquanto o meme exalta o “trabalhador comum”, o mesmo trabalhador paga ICMS, PIS-COFINS, ISS embutidos em tudo que consome. A conta não desaparece; apenas muda de bolso. E quem decide quem é “playboy” e quem merece alívio? Um aparelho burocrático que nunca pagou boleto com o próprio suor.
Memes estatais: propaganda barata, conta cara
O padrão se repete. Quando a argumentação técnica falha, entra o marketing de guerrilha. Gatinhos, dancinhas, realities, trends do TikTok. Tudo vira instrumento de poder. Apagar o post depois da crítica mostra duas coisas: falta de convicção na própria medida e pavor do escrutínio. Não defendem a ideia com números e fatos; fogem quando o teatro é vaiado.
Enquanto isso, o contribuinte brasileiro sustenta uma máquina que gasta fortunas em propaganda oficial, assessoria de imagem e marqueteiros de plantão. O mesmo contribuinte que, ironicamente, é chamado de “playboy” quando reclama da carga tributária que sustenta o circo inteiro.
O preço da ilusão assistencialista
A isenção soa generosa. Na prática, reforça a dependência. Desincentiva o empreendedorismo, pune quem tenta subir na vida e mantém o ciclo vicioso: mais gente dependendo de alívio fiscal, menos gente gerando riqueza real. Liberdade individual não vem de decreto presidencial que “perdoa” parte do que nunca deveria ter sido confiscado. Vem de menos Estado, menos burocracia, menos interferência na vida alheia.
Quem ganha de verdade com essa narrativa? Os que vivem do controle do aparelho estatal. Os que precisam fabricar inimigos imaginários para justificar sua existência. Porque, se o debate fosse sério, teríamos que perguntar: por que o Imposto de Renda existe na forma atual? Por que não simplificar radicalmente a tributação, reduzir alíquotas para todos e deixar o indivíduo decidir o que fazer com o próprio dinheiro?
Conclusão
O Brasil não precisa de mais um governo que entra no BBB para parecer gente como a gente. Precisa de menos governo — ponto. Enquanto o Planalto brinca de meme e apaga evidências de desespero, o cidadão comum segue pagando a conta real: inflação, impostos escondidos, futuro roubado por promessas vazias.
Talvez o verdadeiro “sem carisma grandão” seja exatamente aquele que precisa de reality show para governar. A saída não está em torcer por um lado ou outro do confessionário. Está em recuperar a lucidez: liberdade individual, responsabilidade pessoal e um Estado que pare de nos tratar como figurantes de sua novela particular. Até lá, o circo continua — e a plateia continua pagando o ingresso.