O teatro da “pobreza energética” em Brasília
Uma MP que nasce velha
Aprovada em regime de urgência logo na primeira sessão do ano, com placar humilhante de 415 a 29, a MP 1313/25 nem disfarça sua pressa. Não é difícil entender o motivo: o prazo de validade da medida provisória expira em fevereiro, e o Planalto não quer correr o risco de ver sua mais nova vitrine assistencialista engavetada. O texto substitui gradualmente o Auxílio Gás — aquele depósito de R$ 100 a cada dois meses — por entregas físicas diretas em revendas credenciadas. Em teoria, acaba a fila no banco; na prática, cria uma fila nova, agora na porta da revenda conveniada. Progresso, diriam os assessores de comunicação.
O Centrão e o preço das emendas
O Centrão, fiel a si mesmo, não aprovou por amor à causa social. Aprova porque o governo paga a conta em emendas, cargos e fatias do orçamento secreto rebatizado. É o mesmo mecanismo de sempre: o Executivo compra apoio parlamentar com o dinheiro do contribuinte, e o contribuinte, coitado, nem é convidado para a mesa. Enquanto isso, os 29 votos contrários — majoritariamente PL e Novo — viram figurantes em um espetáculo já ensaiado. A democracia representativa brasileira reduzida a isso: um jogo de toma-lá-dá-cá em que o povo sempre leva a pior.
A ilusão da gratuidade e o custo real da dependência
Chegar a 15 milhões de famílias — cerca de 50 milhões de pessoas — até março de 2026 soa generoso até você lembrar quem paga a conta. Bilhões de reais saídos dos impostos de quem já trabalha dobrado para sustentar a própria família e, de quebra, bancar a de quem não trabalha. Não há contrapartida séria: nem exigência de capacitação, nem estímulo ao empreendedorismo, nem cronograma para reduzir a dependência. O programa inclui biodigestores em áreas rurais e cozinhas solidárias, mas ninguém explica como essas iniciativas escapam da praga nacional da má gestão e da corrupção endêmica.
O resultado previsível é o de sempre: o que começa como “ajuda emergencial” vira direito adquirido, vira política permanente, vira eleitorado cativo. A pobreza energética, tão falada nos releases oficiais, não será resolvida com botijão gratuito. Será maquiada. Enquanto o preço do gás continuar refém de impostos federais abusivos, de monopólios estatais disfarçados e de uma Petrobras que oscila entre populismo e incompetência, a verdadeira solução — baratear o produto via mercado — continuará sendo sabotada por quem lucra com a miséria alheia.
Eleições 2026 no horizonte: o assistencialismo como estratégia de poder
Não é coincidência o cronograma bater com o ano pré-eleitoral. Alcançar 50 milhões de beneficiários exatamente quando a campanha de 2026 estiver pegando fogo é uma jogada tão óbvia que chega a ser desonesta de tão transparente. O cálculo é frio: quem recebe o botijão de graça tende a votar em quem entrega o botijão. Não importa se a inflação come o poder de compra, se o desemprego persiste ou se a dívida pública ameaça explodir. Importa o gesto, a foto, o agradecimento na porta da revenda.
Essa lógica já deu errado incontáveis vezes na história recente do Brasil. Programas que nascem temporários viram eternos. Auxílios que surgem para mitigar crises viram mecanismo de perpetuação no poder. E o cidadão, em vez de ser incentivado a produzir riqueza, é treinado a esperar a próxima entrega. É a versão tropical do pão e circo — só que sem o circo e com muito mais impostos.
O que o mercado faria diferente — e por que Brasília nunca permite
Imagine um cenário em que o governo fizesse o oposto: reduzisse drasticamente os impostos sobre combustíveis, desburocratizasse a abertura de revendas, incentivasse a produção nacional de gás e permitisse maior concorrência na importação. O preço cairia por ação da oferta e da demanda, não por decreto. Famílias pobres comprariam mais botijões com o próprio dinheiro, sem precisar se humilhar na fila da assistência. Empreendedores criariam empregos na cadeia de distribuição. A Petrobras seria forçada a competir de verdade, em vez de servir de caixa eletrônico de governo.
Mas isso exigiria algo que Brasília mais teme: abrir mão do controle. O Estado brasileiro não quer cidadãos autônomos; quer clientes cativos. Por isso o intervencionismo nunca recua: cada real distribuído é um voto comprado, cada fila organizada é uma corrente reforçada.
A escolha entre esmola eterna e liberdade real
O “Gás do Povo” não combate a pobreza; ele a administra. Não empodera o brasileiro; ele o infantiliza. Enquanto o discurso oficial fala em dignidade, a prática entrega dependência. A verdadeira saída para a miséria não está em mais um programa de entrega domiciliar, mas na devolução de poder ao indivíduo: menos carga tributária, menos regulação asfixiante, menos político decidindo onde o cidadão deve gastar o dinheiro que ele mesmo ganhou.
Até quando vamos aceitar que o Estado nos “salve” tirando de um bolso para colocar no outro — e ficando com a comissão no meio do caminho? A pergunta não é se o botijão vai chegar de graça na casa do pobre. A pergunta é: quando vamos parar de tratar o pobre como incapaz de comprar o próprio botijão?