A confissão que ninguém queria ouvir
A declaração veio em tom de desabafo, quase de luto. Um jurista respeitado, alinhado ao marxismo mais intransigente, olhou para o governo atual e viu não uma revolução em curso, mas um arranjo conveniente com o sistema que ele mesmo diz combater. A “esquerda liberal” — termo que engloba o PT de hoje, o identitarismo de boutique e o reformismo de resultados pífios — teria cumprido seu papel histórico: dar roupagem progressista ao capitalismo, convencer as massas de que “não há alternativa” e impedir qualquer organização popular genuína contra o poder econômico concentrado.
O mais revelador não é a crítica em si, mas o desespero embutido nela. Quem fala assim não está apenas insatisfeito; está constatando uma falência. O projeto que mobilizou milhões em 2022 entregou, até agora, mais do mesmo: inflação de promessas, aumento da máquina pública, dependência crescente de subsídios e uma agenda cultural que distrai enquanto os bancos e as grandes empresas seguem lucrando como nunca. A frustração de quem esperava ruptura e só ganhou mais Estado inchado é quase palpável. E quando o próprio radical admite que o experimento fracassou em mobilizar as massas, o castelo de cartas começa a balançar.
O silêncio cúmplice da grande imprensa
Curiosamente — ou nem tanto —, os grandes veículos de comunicação que costumam transformar qualquer crítica à direita em manchete nacional optaram pelo mais absoluto mutismo. Nenhuma nota na Globo, zero centímetros na Folha, silêncio sepulcral no Estadão e na Veja. A seletividade é tão escancarada que chega a ser didática. Quando o ataque vem de fora, é amplificado até virar escândalo. Quando vem de dentro, é convenientemente varrido para debaixo do tapete.
Esse comportamento não é acidente. É sintoma de uma captura ideológica profunda. A mídia mainstream brasileira não atua como fiscal do poder; atua como guardiã do establishment progressista. Desde que o discurso mantenha a aparência “de esquerda”, mesmo que sirva aos mesmos interesses de sempre, ele merece proteção. A bomba jogada pelo professor da USP não foi ignorada por desinteresse, mas por perigo: expõe a fragilidade do arranjo que une poder político, econômico e midiático sob a bandeira do “progresso”. Admitir a crise interna seria abrir a porteira para questionamentos que ninguém ali quer responder.
A farsa da esquerda que governa para o capital
No fundo, o que está em colapso não é apenas um governo ou um partido. É toda uma forma de fazer política que substituiu a luta de classes por políticas de cotas, o enfrentamento ao capital por selfies com CEOs e a transformação estrutural por mais impostos e mais regulação. O identitarismo, vendido como avanço civilizatório, serve de cortina de fumaça para a manutenção da ordem existente. Enquanto se discute linguagem neutra e banheiros unissex, os mecanismos de concentração de renda seguem intactos — e muitas vezes fortalecidos pelo próprio Estado intervencionista.
Essa esquerda aprendeu a conviver muito bem com o que diz odiar. Fala em democracia enquanto centraliza decisões em Brasília. Defende o povo enquanto multiplica cargos comissionados e privilégios. Promete mudança enquanto perpetua a dependência de programas assistencialistas que nunca resolvem a pobreza, apenas a gerenciam. O resultado é previsível: as massas, que supostamente seriam representadas, continuam desmobilizadas, descrentes e cada vez mais distantes de qualquer projeto coletivo. A crise não é conjuntural; é estrutural.
O vácuo que favorece a liberdade individual
O enfraquecimento dessa esquerda de fachada não significa, automaticamente, vitória da direita tradicional. Significa oportunidade. Quando o discurso oficial de transformação se esgota em si mesmo, abre-se espaço para ideias que colocam o indivíduo — e não o Estado — no centro da história. Responsabilidade pessoal, redução da interferência burocrática, mercado livre como motor de prosperidade, proteção efetiva da propriedade e da família. Valores que, por anos, foram ridicularizados como “retrógrados” ou “neoliberais”, começam a soar menos absurdos diante da constatação de que o suposto progressismo só trouxe mais controle e menos resultados.
A divisão interna da esquerda — entre os que aceitam o jogo e os que ainda sonham com ruptura — é autodestrutiva por natureza. Quanto mais os radicais gritam que o modelo atual é insuficiente, mais evidenciam que ele nunca foi suficiente. E quanto mais o contribuinte percebe isso, menos disposto fica a financiar o teatro.
Conclusão
O fim do tempo da esquerda liberal não é motivo para comemoração ingênua, mas para lucidez fria. Não basta o colapso de um lado para que o outro floresça. É preciso escolher, de forma consciente, entre perpetuar o ciclo de promessas estatais vazias ou assumir o risco da liberdade genuína — aquela que não vem com curador, subsídio ou narrativa pronta. O Brasil já experimentou demais o preço da dependência e da centralização. Talvez esteja na hora de testar o oposto: menos Brasília, mais Brasil. Menos controle, mais responsabilidade. Menos teatro, mais realidade.