Um desfile “homenagem” ao presidente custou milhões públicos, exigiu Exército e PF para proteger alegorias — eis o Estado brasileiro em sua forma mais caricata e cara.
A liturgia do poder na avenida
Imagine uma festa popular que precisa de blindagem militar para sobreviver. Foi exatamente isso que aconteceu na concentração da Presidente Vargas: carros alegóricos ensacados, vigilância armada 24 horas, presença ostensiva da Polícia Federal e até apoio logístico das Forças Armadas. Tudo para proteger esculturas de papel machê e espuma que retratam um único homem.
Segurança de Estado para bonecos de papel
O pretexto? “Risco de vandalismo”. Na prática, um governo que se diz cercado de ódio transforma uma avenida em zona militarizada. Enquanto isso, ruas de Fortaleza, Recife e São Paulo seguem entregues ao tráfico. O contraste é brutal: o Estado gasta fortunas para proteger símbolos do poder e deixa o cidadão comum à mercê da violência real.
O culto que precisa de fuzil
Um culto à personalidade que só se sente seguro com metralhadora ao lado. Em qualquer democracia madura, isso soaria ridículo. Aqui, virou rotina. E o mais irônico: quem ousou erguer uma camisa da Seleção com gesto de crítica foi “orientado” pela própria PF a se calar. Liberdade de expressão? Só quando conveniente.
Dinheiro público no altar do ego
R$ 4 milhões saíram direto do caixa da Prefeitura de Niterói — cidade governada por aliado do PT. Somem-se verbas federais via Rouanet, repasses à Liesa e o custo oculto da segurança. Total? Milhões de reais do contribuinte transformados em adoração pessoal. Em ano de contas no vermelho, inflação teimosa e dívida pública explodindo, o governo escolhe bancar um palanque de luxo.
Enquanto isso, escolas sem merenda, hospitais sem remédio e estradas esburacadas esperam. Mas o ego presidencial não espera. O espetáculo deve continuar.
A narrativa oficial na passarela
Do “operário” ao semideus sem máculas
O enredo conta uma história de cinema: infância pobre, fundação do PT, programas sociais que “salvaram o Brasil”. Zero menção aos mensalões, petrolões, delações premiadas ou ao impeachment da sucessora. História reescrita em ritmo de samba. Inconvenientes? Apagados com glitter.
Inimigos caricaturados, história seletiva
Temer vira traidor, Dilma heroína vítima, Bolsonaro “Bozo” palhaço. Sátira barata, paga pelo erário. O carnaval, que já foi crítica ácida e irreverente, virou instrumento de propaganda oficial. E o TSE, em decisão unânime, liberou o desfile alegando que “não é propaganda eleitoral”. Quem acredita nisso?
O risco da autopromoção em época de crise
A glória antecipada pode sair cara. A própria presidente do TSE admitiu o “risco concreto de ilícito eleitoral”. O risco de inelegibilidade já está no ar. Moderados que ainda respiram independência veem o espetáculo e se afastam. A imagem de um presidente desconectado, cercado de bajuladores em plena crise, é o pior marketing possível.
A oposição não ficou quieta: críticas ao desperdício e ao uso eleitoreiro de verba pública ganharam força. Até o PL lançou paródia. O povo, que paga a conta, começa a perceber o truque.
E o pior: a esquerda, que gritava contra “ditadura” quando o adversário usava o poder, agora aplaude o próprio circo. Hipocrisia que o samba não esconde.
O carnaval deveria ser escape, alegria, sátira livre. Virou extensão do teatro de Brasília: caro, controlado e vazio. Enquanto o contribuinte financia o culto, a liberdade real encolhe. O povo paga duas vezes: com o imposto e com o espetáculo que o insulta. Hora de perguntar: até quando vamos bancar essa farsa?