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Samba Vermelho: Quando o Carnaval Vira Palanque Estatal

Propaganda antecipada no samba-enredo de Lula no Carnaval: ação do Novo no TSE expõe abuso e hipocrisia política.
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Resumo

A Homenagem que Cheira a Campanha

O título já entrega o jogo: “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Mulungu pode até ser árvore medicinal, mas aqui serve de metáfora para um salvador da pátria que, convenientemente, coincide com o ocupante do Planalto. Letra repleta de referências ao 13, trechos que ecoam propagandas antigas, emoção fabricada para despertar identificação. Isso não é samba de raiz; é jingle de campanha vestido de fantasia.

A diferença entre homenagem e propaganda eleitoral antecipada é sutil apenas para quem quer ser enganado. A legislação brasileira é clara: em ano de eleição, ninguém pode usar meios de comunicação ou eventos de grande alcance para pedir voto antes da hora. Mas quando o palco é o maior espetáculo popular do país, financiado em parte por incentivos públicos e isenções fiscais, a linha fica borrada — de propósito. A esquerda, que passa o ano gritando “abusos de poder econômico” e “desequilíbrio democrático”, agora descobre que o povo cantando na avenida é expressão legítima da cultura. Conveniente, não?

O Contribuinte no Banco do Samba

Carnaval não é barato. Escolas recebem repasses diretos ou indiretos via Lei de Incentivo à Cultura, patrocínios estatais, isenções de impostos e estrutura logística custeada pelo poder público. Quando o enredo vira peça de campanha para o presidente da República, o que temos é uso de dinheiro alheio para promoção pessoal. O mesmo Estado que taxa o pequeno empresário até a exaustão e mantém uma máquina inchada agora banca — ainda que indiretamente — o marketing de um candidato à reeleição.

Imagine o inverso: uma escola de samba subindo a avenida com enredo exaltando um presidenciável da oposição, cantando o número 17 ou 22 com o mesmo fervor. O TSE já teria se manifestado em tempo recorde, a imprensa corporativa estaria em polvorosa e teríamos uma enxurrada de editoriais sobre “ameaça à democracia”. Mas quando o beneficiário é o incumbente, o silêncio é ensurdecedor. O duplo padrão não é acidente; é estratégia.

A Relatora Perfeita para o Julgamento

A ação movida pelo Partido Novo caiu, por sorteio, nas mãos da ministra Estela Aranha — indicada ao TSE pelo próprio Lula. Sorteio, dizem. Coincidência, repetem. No Brasil de 2026, acreditar nisso exige um nível de ingenuidade que beira a cumplicidade. O tribunal que deveria ser guardião da lisura eleitoral tem entre seus membros alguém que deve o cargo ao investigado indireto. É como colocar o caixa do banco para julgar o desfalque.

Não se trata de atacar pessoas, mas de reconhecer um padrão: instituições capturadas protegem quem as capturou. Quando o Judiciário vira extensão do Executivo, a alternância de poder — pilar mínimo de qualquer democracia que preste — deixa de ser risco e vira ilusão. E o contribuinte, mais uma vez, paga a conta da farsa.

Cultura Livre ou Doutrinação Oficial?

O samba nasceu livre, nas rodas de terreiro e nos quintais. Virou patrimônio porque era expressão genuína, não porque servia de megafone para quem estivesse no poder. Hoje, porém, a cultura popular é vista por certos setores como ferramenta de narrativa. Mistura-se folclore com política, carnaval com militância, e quem discorda vira inimigo do povo. O resultado é previsível: o que era espaço de liberdade criativa vira vitrine de propaganda estatal.

A verdadeira liberdade cultural não precisa de enredo encomendado nem de incentivo fiscal condicionado. Ela floresce quando o Estado sai de cena, deixa o artista criar sem amarras e o público decidir o que merece aplauso. Qualquer coisa além disso é controle disfarçado de celebração.

Conclusão

O Brasil não precisa de mais palanques fantasiados de folia. Precisa é de gente que pare de confundir o bolso público com caixa de campanha e comece a respeitar a inteligência do eleitor. Se o Carnaval quer ser de todos, que seja de verdade: sem número de urna, sem jingle reciclado, sem ministro-relator amigo do homenageado. Caso contrário, que assumam logo: a avenida virou extensão da Esplanada dos Ministérios, e o samba, mais um instrumento de poder centralizado.

A solução não está em mais leis nem em mais tribunais politizados. Está na recusa lúcida de bancar a própria manipulação. Cada real desviado para propaganda disfarçada de cultura é um real a menos na liberdade de escolha do cidadão comum. Talvez esteja na hora de exigir que o Estado saia do baile — e leve junto o megafone vermelho.

Confira o vídeo.

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