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O STF que ri da própria ética

STF ri da própria ética: Moraes e Toffoli resistem a código de conduta. Privilégios intocáveis?
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Resumo

A farsa da autocontenção

Ministros como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli não perderam tempo. Saíram em defesa veemente do statu quo: a Constituição já regula tudo, a Lei Orgânica da Magistratura já basta, o decoro já existe no papel. Tradução: “não toquem no que já funciona para nós”. É o clássico discurso da casta que se autorregula — e que, na prática, nunca se regula. Enquanto o cidadão comum é multado por R$ 500 por infração de trânsito, o ministro defende o direito inalienável de receber cachês de palestras e aplicar o dinheiro em ações de empresas que podem aparecer amanhã como parte de processos no próprio tribunal.

A ironia é tão espessa que quase dá para cortar com faca. O mesmo tribunal que censura redes sociais, bloqueia contas e determina prisões preventivas sem fim alega que qualquer tentativa de amarrar suas próprias condutas viola a independência do Judiciário. Independência de quem, exatamente? Do povo? Da lei? Ou apenas da possibilidade de ser cobrado por alguém que não use toga?

Privilégios intocáveis em meio ao escândalo

Palestras, ações e o Banco Master

O timing não poderia ser mais revelador. Enquanto o nome de parentes e aliados de ministros circula em investigações envolvendo o Banco Master — aquele que prometia milagres financeiros e terminou em intervenção —, Moraes aparece defendendo publicamente o direito sagrado de magistrados lucrarem com palestras e investirem onde bem entenderem. Toffoli, por sua vez, não vê problema algum em participar de empresas. São declarações feitas em plenário, com microfones abertos, como se o Brasil inteiro não estivesse assistindo ao teatro.

Não se trata de inveja ou moralismo barato. Trata-se de coerência mínima. Se um juiz de primeira instância é obrigado a declarar viagens, presentes e até cursos pagos por terceiros, por que o ministro do Supremo pode acumular cachês milionários e carteiras de ações sem que ninguém pisque? A resposta é desconfortavelmente simples: porque eles podem. E porque, até agora, ninguém conseguiu — ou quis — impedir.

O recuo estratégico de Fachin

Diante da resistência ferrenha, Fachin fez o que qualquer político experiente faz quando percebe que perdeu a maioria: recuou. A reunião foi suspensa, o cronograma evaporou, e o código de ética voltou para a gaveta das boas intenções. O gesto foi vendido como “diálogo necessário”, mas o cheiro é de capitulação. Quando o presidente da Corte não consegue nem marcar uma pauta interna, fica evidente quem realmente manda no pedaço.

O feudo intocável e a ilusão da reforma interna

O episódio escancara uma verdade que a maioria dos brasileiros já intui, mas poucos têm coragem de dizer em voz alta: o Supremo se tornou um feudo. Não um poder da República, mas um poder sobre a República. Uma casta que julga o país, mas resiste a ser julgada por qualquer padrão externo. Reformas internas? Só na medida em que sirvam de maquiagem para manter as aparências. Quando o assunto ameaça privilégios reais — dinheiro, influência, impunidade seletiva —, o discurso muda para “ataque à independência”.

É o mesmo padrão que se repete há décadas na política brasileira: quem detém o poder cria regras para os outros e exceções para si. O Congresso faz leis que não cumpre, o Executivo gasta o que não arrecada, e o Judiciário decide o que é constitucional conforme a conveniência do dia. A diferença é que, no caso do STF, não existe contrapeso efetivo. Não há recall, não há impeachment fácil, não há prestação de contas popular. Apenas a liturgia da toga e o silêncio constrangido da imprensa que ainda depende de verbas e favores.

Enquanto isso, o brasileiro médio continua pagando a conta: impostos altos, insegurança jurídica, inflação de decisões monocráticas e a sensação crescente de que a lei vale para uns, mas não para todos.

Conclusão

Não haverá código de ética voluntário enquanto os beneficiários do descontrole ditarem o ritmo. A solução nunca esteve dentro do próprio tribunal — e nunca estará. Qualquer mudança séria exigirá pressão externa: controle externo efetivo, mandato fixo, mecanismos de responsabilização política e, sobretudo, a recusa popular em aceitar o teatro de impunidade travestido de instituição republicana.

Até lá, o Supremo seguirá rindo da própria ética — e o Brasil, assistindo, pagando a conta e perguntando a si mesmo: até quando?

Confira o vídeo.

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