A ilusão da autonomia submarina
O discurso bonito da Cúpula do Rio
Em 2025, durante a reunião dos BRICS no Rio, o Brasil propôs — e o bloco aprovou — um estudo de viabilidade para uma rede de cabos de fibra óptica ligando diretamente os 11 países membros. Financiamento? Novo Banco de Desenvolvimento, o famoso NDB, apelidado de “Banco dos BRICS”. A narrativa oficial é impecável: maior velocidade, maior segurança, maior soberania. Palavras que soam maravilhosas em slides de PowerPoint e discursos de palanque. Mas quem presta atenção percebe o cheiro familiar de projeto estatal grandioso: caro, demorado e com alta probabilidade de virar elefante branco.
Fortaleza como âncora… de quê mesmo?
Fortaleza já é um dos maiores hubs de cabos submarinos da América Latina. Empresas privadas — Google, Meta, Microsoft, Angola Cables, EllaLink, entre outras — já ancoraram ali dezenas de conexões transatlânticas e sul-americanas. A infraestrutura existe, funciona, é redundante e, principalmente, não depende de decisão política de Brasília para receber atualização. Por que, então, o Estado brasileiro insiste em construir algo paralelo? A resposta mais honesta é a menos glamourosa: geopolítica e ideologia, embaladas em discurso de “Sul Global”.
Do monopólio americano ao abraço autoritário
A justificativa oficial é reduzir a dependência dos Estados Unidos, que historicamente controlam boa parte da backbone global da internet. Faz sentido questionar monopólios. O problema é que a alternativa apresentada não é descentralização ou mercado aberto — é centralização em outro polo. A China, que domina economicamente o bloco BRICS, já exporta seu modelo de governança digital: o “New IP” da Huawei não é apenas tecnologia de rede; é arquitetura que facilita censura em massa, rastreamento de usuários e interrupção seletiva de tráfego. Trocar o risco de vigilância da NSA por um Great Firewall tropicalizado não é ganhar soberania. É apenas mudar de supervisor.
O Ocidente, com todos os seus defeitos — incluindo abusos reais de agências de inteligência —, ainda opera sob freios institucionais: imprensa livre, judiciário independente, Congresso barulhento e opinião pública que reage. Na China e na Rússia, esses contrapesos simplesmente não existem. Quando um regime que mantém campos de reeducação em massa ou invade vizinhos soberanos ganha controle sobre a espinha dorsal da sua conectividade, a palavra “soberania” vira piada de mau gosto.
O custo real para o contribuinte brasileiro
O Brasil já possui uma rede robusta: múltiplos cabos internacionais, pontos de troca de tráfego (IX.br) entre os maiores do mundo, data centers crescendo em São Paulo e no Nordeste. Operadoras privadas investem bilhões porque há lucro em oferecer conectividade eficiente. Por que, então, desviar recursos públicos para um megaprojeto geopolítico? A resposta está na história recente: estatais adoram obras faraônicas. Elas geram contratos, empregos temporários para aliados, fotos bonitas e manchetes de “Brasil potência”. O que não geram é retorno real para o cidadão que paga a conta.
- Obra atrasada? Culpa do câmbio.
- Orçamento estourado? Imprevistos.
- Corrupção descoberta? “Falta de transparência do governo anterior”.
O roteiro é conhecido. E o pior: ao distorcer o mercado com subsídios estatais, o governo afugenta exatamente os investidores que poderiam expandir a infraestrutura de forma ágil e barata.
Liberdade digital ou coleira ideológica?
Soberania digital de verdade não nasce de cabos estatais nem de alianças com ditaduras. Ela vem de propriedade privada respeitada, regulação mínima, competição aberta e indivíduos livres para criar, acessar e disseminar informação sem medo de um comitê central decidir o que é “verdade”. O projeto BRICS, ao contrário, carrega o DNA do controle: regimes que apagam protestos, censuram minorias e monitoram cada mensagem trocada por cidadãos comuns agora terão mais uma ferramenta para estender esse modelo ao Sul Global.
Quando o discurso de “multipolaridade” serve de biombo para alinhamento com quem viola direitos humanos de forma sistemática, o resultado não é independência. É submissão com selo ideológico. E o preço não é pago em yuan ou em rublos — é pago em liberdade.
Conclusão
O caminho mais sensato é o menos sexy: desburocratizar, proteger contratos, reduzir impostos sobre infraestrutura e deixar o mercado — com seus erros e acertos — construir a conectividade que o Brasil realmente precisa. Sem fanfarra geopolítica, sem financiamento estatal, sem ilusão de soberania que só troca de dono. Porque, no fim das contas, cabos submarinos não libertam ninguém. Quem liberta são indivíduos livres, mercados abertos e Estados que aprendem, de uma vez por todas, a ficar quietos.