A armadilha da “transparência” regulatória
O estopim foi cirúrgico. Dias depois do anúncio da compra do Banco Master pela Fictor, o Banco Central simplesmente liquida a instituição. Sem demora, sem contraditório efetivo, sem chance real de defesa. A narrativa oficial fala em “riscos sistêmicos” e “investigações em andamento”. O efeito imediato? Uma mancha indelével na reputação da compradora. Investidores, que até ontem viam potencial, passam a enxergar perigo. Resultado: mais de R$ 2 bilhões sacados em corrida frenética. Liquidez some. Dívidas de R$ 4 bilhões ficam impossíveis de rolar sem deságio. Pedido de recuperação judicial vira a única saída para tentar preservar operações e empregos.
Chama a atenção o timing impecável. O BC age exatamente quando a Fictor anuncia uma parceria que poderia trazer R$ 3 bilhões de capital árabe para o sistema financeiro brasileiro. Coincidência? Talvez. Mas no Brasil de intervenções seletivas e narrativas coordenadas, coincidências desse tamanho costumam ter endereço fixo: Brasília.
A ironia é cruel. O mesmo Estado que se vende como guardião da “transparência” e da “estabilidade” age com a delicadeza de um tanque de guerra: destrói primeiro, explica (mal) depois. Enquanto isso, cartéis bancários consolidados seguem intocados, lucrando com spreads estratosféricos e zero concorrência de verdade. O empreendedor que tenta romper esse oligopólio? Virou alvo.
Investidores na fila dos quirografários: o preço da confiança no Brasil
Mais de 13 mil pessoas físicas e pequenas empresas agora figuram como credores quirografários — ou seja, no final da fila, sem qualquer garantia real. Muitos aportaram via Sociedades em Conta de Participação (SCPs), instrumento que não goza de proteção do Fundo Garantidor de Créditos. Em bom português: se der errado, o dinheiro vira pó.
Nomes conhecidos aparecem na lista de prejudicados: o Palmeiras com milhões em patrocínio não pago, o escritor Augusto Cury com valores expressivos, além de milhares de anônimos que confiaram em promessas de rentabilidade e crescimento. Todos eles, agora, assistem impotentes enquanto o Estado e a mídia transformam capital produtivo em narrativa de escândalo.
O mais revoltante é o padrão recorrente. O investidor comum — aquele que não tem acesso a fundos de elite ou assessoria jurídica milionária — é quem mais sofre. Ele é incentivado a “diversificar”, a “aplicar no Brasil”, a “acreditar no crescimento”. Quando a coisa desanda, o Estado lava as mãos e a imprensa aponta o dedo para o empreendedor, nunca para a burocracia que sufoca qualquer tentativa de inovação financeira.
O intervencionismo que mata o crescimento
O caso Fictor não é acidente isolado. É sintoma de um modelo econômico que ainda carrega resquícios pesados de intervencionismo. Decisões unilaterais do BC e da CVM, cobertura midiática que amplifica seletivamente certos casos enquanto ignora outros, ambiente regulatório tão denso que qualquer erro vira tragédia irreversível. Tudo isso combinado desestimula capital produtivo, afugenta investidores estrangeiros e condena o país à mediocridade crônica.
Pense no potencial que foi abortado: uma injeção de R$ 3 bilhões de capital externo, mais competição bancária, mais crédito acessível, mais empregos. Em vez disso, o que resta é uma holding em recuperação judicial lutando para não afundar de vez, enquanto 3.500 famílias dependem da continuidade das operações para não engrossar as estatísticas de desemprego.
Enquanto isso, o discurso oficial segue o mesmo de sempre: “estamos protegendo o sistema”. Protegendo quem, exatamente? Os bancos grandes que dominam o mercado há décadas? As elites reguladoras que nunca respondem por uma liquidação mal calibrada? Porque o pequeno investidor, esse sim, está sendo “protegido” até a falência.
Até quando vamos tolerar isso?
O Brasil não precisa de mais regulação. Precisa desesperadamente de menos Estado metendo a colher em tudo. Precisa de liberdade contratual real, de responsabilidade individual assumida sem muletas estatais, de um ambiente onde o risco seja premiado quando dá certo e absorvido pelos envolvidos quando dá errado — sem que o contribuinte ou o empreendedor alheio pague a conta.
O caso Fictor é um alerta escancarado: enquanto o intervencionismo e a histeria midiática continuarem sendo as ferramentas preferidas de controle, o país seguirá fabricando essas tragédias em série. Bilhões evaporam, sonhos são liquidados, empregos pendurados por um fio. E quem lucra com isso? Nunca quem arrisca. Sempre quem regula.
Chega de aplaudir o carrasco fantasiado de salvador. Ou mudamos radicalmente o rumo — menos Brasília, mais liberdade — ou continuaremos assistindo, impotentes, ao enterro sistemático do que ainda resta de iniciativa privada no Brasil.